Vozes femininas portuguesas da actualidade

Cinco vozes femininas, portuguesas, da actualidade. Aqui, com imenso glamour, produção a rigor, dão-nos ainda mais brilho.

Para quem ainda não as conhece, aqui fica, para ter em conta!

Texto e imagem adaptados da revista Máxima.





Sónia Tavares
"O perene mistério pop
Fica-se sempre à espera, quan­do começa a cantar, que aborde Lili Marleen, como Marlene Dietrich, ou que desvende Broken English, nos mesmos parâmetros de Ma­rianne Faithfull. A voz grave convida ao mistério, o sábio resguardo a que se remete adensa a aura indecifrável que a cerca, uma dúzia de anos depois de se ter revelado como aquela que pode pairar sobre a música magnética dos The Gift. Tem perfil de dama antiga e assume a sedução despreocupada com os públicos. Mas pode ser andrógina e robótica. O maior dos con­trapontos é que também aprendeu a abraçar Amália, nunca pro­curando a cópia, mas ensaiando uma con­vincente tradução para outras línguas mu­sicais. Femme fatale? Também, mas mais. É uma guerreira de salão – e encanta sempre, sem perder a noção da distância, do segredo."


Carminho
"A alma cheia de Fado
É no Fado que respira, que repousa, que se reequilibra. Porque, mesmo descendo às profundezas do espírito, o compasso musical é mais calmo do que uma vida que já passou por “longes terras” e por experiências-limite em voluntariados que a teriam obrigado a crescer, se essa maturação não fosse uma exigência própria. É no Fado que se aventura, assumindo os (des)amores sublimes de David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill e Aldina Duarte, seguindo os desenhos de uma Lisboa que some e reaparece nos nevoeiros do tempo, escre­ven­do à cidade ou a uma figura de ficção (Les­­lie Burke, cria­da por Katharine Peterson). É no Fado que se percebe como faz sentido que a sua voz pareça mais velha e vivida do que o olhar entusiasmado. Assim que Carminho começa a cantar, tudo está certo. E é magnífico."


Marta Hugon
"O imenso sorriso do jazz
Filha de outra época e de outra geografia, poderia ser chamada a ombrear com Helen Merrill. Com Rosemary Clooney. Com Peggy Lee. Com Dianne Schuur. Porque, como elas, ajuda a resgatar ao poder negro os direitos exclusivos sobre o Jazz. Porque, como as damas de trunfo, faz corresponder a voz, segura e doce, a uma imagem que é uma poderosa aliada, coroada pelo sorriso que tantas vezes a acompanha em palco. Porque, como as ilustres antecessoras, percebe que as barreiras estilísticas são empecilhos descartáveis para quem acredita na universalidade do que faz: não hesita em juntar Dave Matthews, Paul Simon, Chico Buarque aos clássicos do género que lhe serve de referência, mas não de limite. É cantadora de histórias, que convoca para a sua vida. Como se nunca tivessem conhecido outras paragens."


Marta Mateus
"A rainha de todas as farras
É fácil imaginá-la a descer o Chiado, alegre e colorida, voz a fazer tangentes à surpresa e a acariciar a provocação que é juntar o fado ao ska, o flamenco à java. Fica bem na noite de Mouraria, não destoa na manhã soalheira das Avenidas Novas. Condomínios fechados é que não. Precisa da plateia, do vadiar, da mestiçagem, das idas e regressos, do humor e das angústias, do cosmopolitismo e da excursão suburbana. Vive no palco, mas não se arvora em personagem. Desafia, por instinto de sobrevivência. Lidera uma seita de músicos, vindos “das melhores prove­niências”, que assumem o artesanato e a alma até Almada. É rainha dos arraiais, princesa dos desvalidos, diva da sua rua e de todas as que a receberem. Marta Mateus é a Miranda dos Oquestrada. Podia ser Carmen, de quem é herdeira sen­ti­men­tal."


Adriana
"A paixão de todos os cantos
Um camaleão ou uma criadora à procura de lugar próprio? Não se aplica a lei das incompatibilidades: nos saltos – não so­bressaltos – do swing para a Bossa Nova, das melodias que já nascem intemporais para os climas temperados de rock, tudo é vivido com a pureza da primeira vez. A questão é que Adriana, que ouviu por cá, estudou por lá (Berkeley, Estados Unidos da América) e assimilou por toda a parte, parece ter um prazer, felizmente transmissível, em se embrenhar neste labirinto de estilos, sem pressa de definir balizas e excluir alternativas. Ora esta brincadeira, muito mais toca-e-foge do que “apanhada”, é muito séria por quem compõe, escreve, canta e toca, mudando a voz à medida da necessidade, transformando a imagem em função do desejo. Bate leve, levemente – e o light não bate assim."

Texto e imagem adaptados da revista Máxima.