Mostrar mensagens com a etiqueta Cantigas que Abil cantou. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cantigas que Abil cantou. Mostrar todas as mensagens

PANFLETOS DE ABRIL II

Nasci em 1958, em finais de Outubro, talvez daí o meu fascínio pelo Outono. Adoro o castanho de quando tudo parece acabado e morto, mas pronto para renascer uns meses mais tarde. Gosto de renascer e já o tenho feito por diversas vezes. Ter nascido filho de operário, embora mestre carpinteiro e de família de mestres carpinteiros, de Tornada, num Portugal salazarento, onde a máxima do ditador era ter um povo "estúpido mas casto", nada de bom augurava.
Na escola primária do Bairro da Ponte, como todas as outras, começavam as humilhações às crianças que não eram bem nascidas. As reguadas estavam destinadas pelos professores aos rapazes mal-nascidos. O professor Moreira e a professora Maria Antónia até sabiam reconhecer a qualidade dos rapazes que, com surpresa, até tinham boa performance. Não fora um selvagem chamado Fonseca Lopes que um dia, porque estava mal disposto, me deu 36 (trinta e seis) reguadas, a escola primária até teria passado com normalidade. O gosto pela aprendizagem tinha-me sido dado pela minha mãe que tinha sido regente do ensino primário no Reguengo Grande.
A passagem à escola, agora Bordalo Pinheiro, foi um mundo novo que se descobria. Aparteid no seu melhor, rapazes e raparigas tinham salas separadas, escadas à parte para que nunca se cruzassem. Apenas quando a ginástica nos obrigava a passar pelo recreio das raparigas a coisa se tornava mais complicada, mas estavam lá o sr. Policarpo pela parte dos rapazes e a Teté, pelas raparigas que mantinham as distâncias obrigatórias...
Aquele recreio trouxe-me uma das sensações mais fortes de adolescente quando as pás de um Helicóptero do MFA varreu por completo a areia que cobria os campos alcatroados.

PANFLETOS DE ABRIL I

A minha passagem da adolescência para a idade adulta foi feita num país em mudança. Um país que queria com urgência passar da ruralidade bafienta para a democracia. Todos queriam a mudança e interpretavam-na cada um à sua maneira. Algumas das memoria quero partilhar com quem estiver disposto a ler.
No dia 25 de Abril de 1974, às 8:30, preparava-me, como todos os dias, para mais um dia de aulas. Naquele dia era Geografia com uma prof. muito feia chamada Capela, como eram feias a maioria das profs, num anfiteatro do 3º Piso, exclusivo a rapazes, onde havia alguns dias, o meu colega Madruga tinha sido espancado perante todos os colegas da turma, pelo director, um insigne escultor que gostava de esculpir à chapada as caras dos alunos...
Em Abril de 74, depois daquela madrugada cantava-se assim: