Viana do Alentejo - Chocalhos ainda resistem na oficina Pardalinho










Sara Pelicano | quinta-feira, 16 de Julho de 2009
in http://www.cafeportugal.net/pages/sitios_artigo.aspx?id=970


Em Viana do Alentejo a oficina da família Maia produz artesanalmente chocalhos. A tradição que passou de pai para filho chega hoje a vários países europeus. O Café Portugal falou com Guilherme Maia, um dos sócios dos Chocalhos Pardalinho, e ficou a conhecer o trabalho que leva aos campos o som do chocalho.


O «ding-dong; ding-dong; ding-dong» dos chocalhos nasce das cadências do gado em movimento. É «música» que nasce do pastoreio. Som percebido pelo pastor, olhar demorado no horizonte, corpo firme no cajado, ouvido atento a todas as manobras do rebanho; ao deambular na erva.

O cenário é bucólico, vai resistindo nos nossos campos. Os chocalhos, elemento base de um imaginário sensitivo de paisagem campestre, também desempenham um papel fundamental no pastoreio.

Na oficina dos
Chocalhos Pardalinho, em Alcáçovas, perto de Viana do Alentejo, os chocalhos são, ainda, fonte de rendimento de Guilherme Maia e da sua família. Pouco se sabe sobre o porquê do nome «Pardalinho» ostentado pela oficina.

Guilherme Maia que herdou a actividade do pai e constituiu uma sociedade com Francisco Cardoso, um primo, comenta: «Pardalinho é uma alcunha que o meu avô tinha. Não sei a origem, mas passou de geração em geração. Na hora de dar um nome à empresa, achei adequado. Soa melhor do que o apelido».


Na microempresa Pardalinho trabalha ainda o pai e a mãe de Rui, assim como um primo. Um saber fazer que tem passado de geração em geração. A tradição secular mantém-se intacta.

«Fabricamos os chocalhos artesanalmente, muito à semelhança da tradição árabe, que introduziu os chocalhos na região», explica Guilherme Maia com acentuado entusiasmo pelo que faz.

«Cortamos a chapa de ferro, talhamos com uma tesoura árabe e depois vai para a bigorna. Aqui martelamos de um lado e do outro. A este processo chama-se dar corpo ao chocalho», continua o artesão. O chocalho está preparado, juntam-se agora os batentes, as asas e os velos.

Cerca de três horas passaram na realização de um chocalho médio que enche de orgulho as quatro pessoas que se dedicam a tempo inteiro a esta actividade.


O chocalho junta-se aos restantes, que se vão acumulando nas prateleiras. No início do século XX, em 1913, existiam em Alcáçovas treze famílias que se dedicavam ao fabrico de chocalhos. As origens do nosso protagonista datam desta altura.

Começava então uma dinastia de mestres chocalheiros a produzir as mais variadas peças. «Picadeiro» e «Reboleiro» são dois exemplos dos chocalhos mais procurados na região alentejana. De Viana do Alentejo estes chocalhos vão erradicar para todo o país e também além fronteiras. «Exportamos para França e Espanha. Brevemente vamos entrar no mercado italiano», conta Guilherme Maia.

Os Chocalhos Pardalinho têm por hábito fazer uma prospecção de mercado, partindo em seguida para feiras que consideram estratégicas. Assim, o esquecido mundo rural português ganha contornos internacionais, dando vida económica e desenvolvimento à região.


Recursos escassos
O orgulho que Guilherme Maia sente pela sua actividade é notório. O semblante fica, contudo, mais carregado quando refere dificuldades na formação de novos funcionários. A questão não se prende com a falta de interessados, mas antes com a falta de apoios.

«Aparecem aqui muitos miúdos nos tempos de férias a querer aprender o ofício, por vezes ainda fico com eles, mas é sempre um risco porque a lei não o permite», comenta o nosso interlocutor.

«Não peço apoio financeiro junto do Instituto de Emprego, mas sim a criação de uma excepção na minha actividade para poder formar os mais novos (com menos de 18 anos) que aparecem aqui a querer trabalhar», diz Guilherme. O chocalheiro sublinha uma outra dificuldade, desta vez relacionada com os aprendizes.

Explica: «O ofício leva tempo a aprender, em média quatro anos, pelo que o ordenado inicial não pode ser muito elevado e as pessoas têm dificuldade em entender isso». Os recursos humanos são, desta forma, um desafio que os Chocalhos Pardalinho atravessam diariamente. Com energia, Guilherme Maia junta a actividade de artesão à de empresário. Sente-se, contudo, «mais artesão».

Finda a conversa, o chocalheiro volta a dor corpo à sua peça. Fecha-se a porta da oficina. Não muito longe, nos campos, ouve-se um «ding-dong, ding-dong, ding-dong».


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