Em busca da Beleza - Excertos, Fernando Pessoa



(...)

II

Nem defini-la, nem acha-la, a ela -
A Beleza. No mundo não existe.
Ai de quem com a alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhe-la!

Acanhe-se a alma porque não conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer havê-la -
À Perfeição - só a desgraça assiste.

Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;

Conhece o tédio extremo da desgraça,
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal inútil da vazia taça.


III


Só quem puder obter a estupidez

Ou a loucura pode ser feliz.

Buscar, querer, amar...tudo isto diz

Perder, chorar, sofrer, vez após vez.


A estupidez achou sempre o que quis

Do círculo banal da sua avidez;

Nunca aos loucos o engano se desfez

Com quem um falso mundo seu condiz.


Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:

É conhece-los bem, saber quem são


Um o horror real, o outro o vazio -

Horror não menos - dois como que vales

Duma montanha que ninguém subiu.



IV

Leva-me longe, meu suspiro profundo,

Além do que deseja e que começa,

Lá muito longe, onde o viver se esqueça

Das formas metafísicas do mundo.


Aí que o meu sentir vago e profundo

O seu lugar exterior conheça,

Aí durma em fim, aí enfim faleça

O cintilar do espírito fecundo.


Aí...mas de que serve imaginar

Regiões onde o sonho é verdadeiro

Ou terras para o ser atormentar?


É elevar demais a aspiração,

E, falhado esse sonho derradeiro,

Encontrar mais vazio o coração.


(...)


Fernando Pessoa