
(...)
II
Nem defini-la, nem acha-la, a ela -
A Beleza. No mundo não existe.
Ai de quem com a alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhe-la!
Acanhe-se a alma porque não conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer havê-la -
À Perfeição - só a desgraça assiste.
Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;
Conhece o tédio extremo da desgraça,
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal inútil da vazia taça.
III
Só quem puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar...tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.
A estupidez achou sempre o que quis
Do círculo banal da sua avidez;
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.
Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
É conhece-los bem, saber quem são
Um o horror real, o outro o vazio -
Horror não menos - dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.
IV
Leva-me longe, meu suspiro profundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí...mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
(...)
Fernando Pessoa