
"Em terra de cegos, só quem tem um olho é rei. Quem vê com os olhos todos, o corpo todo, a alma toda só pode estar condenado ao exílio e à maldição" - esta citação de João Bénard da Costa diz muito do carácter e da visão do homem que, aos 74 anos, deixa para sempre a sua marca no estudo e exibição do cinema em Portugal.
Desde sempre um apaixonado pelo cinema, essa paixão agudiza-se em 1969. “O Cinema , até entrar para a Gulbenkian, não tem um lugar muito importante na minha vida. É uma coisa de que gosto muito, como de literatura, pintura ou música, sobre a qual escrevo ocasionalmente, mas não é exclusiva — até é relativamente marginal nos anos 60, uma música ao longe.” (revista “Pública”, 2001).
Aproveito para citar da noticia do Público o seguinte trecho:
"O que acontece em 1969 é que Bénard vai organizar a secção de cinema no serviço de Belas Artes da Gulbenkian, com ciclos que hão-de marcar milhares de espectadores.
Que os havia, e muitos, nesse Portugal de interditos, provou-se logo na primeira sessão, em 1973, com “Roma, Cidade Aberta” apresentada pelo próprio Rosselini. Em cima da hora a censura ainda quis actuar, mas conteve-se por o realizador já estar em Lisboa. Tendo dormido e até ressonado na sessão — porque detestava rever os próprios filmes —, Rosselini acordou com uma ovação de 10 minutos, entre gritos de “Abaixo o fascismo!” e “Liberdade! Liberdade!” Henri Langlois, o mítico director da Cinemateca Francesa, estava lá, e viu nessa explosão a emergência do 25 de Abril.
Foi também nesse ano que João Bénard começou a ensinar Cinema no Conservatório. Só deixou de dar aulas em 1980, quando — a convite de Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura — entrou para a Cinemateca Portuguesa como subdirector. Em 1991, sucedeu a Luís de Pina na direcção, até hoje."
Esta sexta-feira às 21h30, haverá uma projecção do filme Johnny Guitar na sua segunda casa, a Cinemateca.
