A propaganda ao sol não conseguia esconder o bucolismo de uma sociedade atrasada social e politicamente. Fomos todos a Aldeia da Roupa Branca, retrato fiel e involuntário de um país que desejava mudar contra a vontade do ditador e da sua oligarquia.
A mensagem da primeira quadra - "Ó rio não te queixes, Ai o sabão não mata, Ai até lava os peixes, Ai põe-nos cor de prata." - faz-nos lembrar um país lavadinho e ignorante. Os rios eram imensos tanques para a função mais nobre do paradigma, imposto na altura, da mulher portuguesa fada/escrava do lar, a de lavadeira que levava a vida a cantar.
Aldeia da Roupa Branca
Beatriz Costa
Composição: Raul Portela, G. Chianca, A. Curto
Ó rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.
Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.
Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.
Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.