11 de Setembro de 1973

Falando de Estados Unidos, hoje é 11 de Setembro e eu gostava de lembrar aqui um 11 de Setembro mais esquecido que o de 2001 cujas vítimas têm todo o meu respeito, o de 1973.


"O golpe militar de 11 de Setembro de 1973, executado a mando dos Estados Unidos sob a capa do eufemismo de combater o comunismo, foi para experimentar no Chile uma teoria económica que, com qualquer oposição submetida pelo terror, tinha de funcionar. Nunca se desmantelou a indústria nacional de um país com tanta celeridade. Nunca um país se tornou tão dependente, em nome de uma competitividade na qual não podia tomar parte. Nunca se gerou uma classe de ricos tão ricos e nunca o empobrecimento económico, moral e cultural de um país se deu de maneira tão veloz. Nunca se entregaram os recursos naturais de uma país com tanta generosidade e nunca um país foi tão generoso tributariamente com os investidores.
Mas, no ano de 2006, o "isto é o que há" alterou-se. O modelo económico neoliberal provocou crises globais, o peso do mercado sobre os Estados Unidos e as instituições de cidadania fez com que, sem se poderem opôr, os habitantes do planeta sejam vítimas de uma regressão do capitalismo, que voltou a uma fase de acumulação primária, na qual vale tudo para assegurar a multiplicação do lucro, enquanto que os estados, lumpenizados, se limitam a gerir o espólio dos seus cidadãos ou a reprimir, no pior dos casos.
E como o "isto é o que há" se alterou, porque dos golpes militares para combater o "inimigo interno" se passou directamente para a agressão, sendo esta a única maneira de compreender a querra do Iraque ou as constantes tentativas de desestabilização do governo de Hugo Chávez, a grande esperança que Michelle Bachelet gerou é uma esperança ética.
Os Chilenos desejam recuperar o direito de projectar as suas vidas para um futuroi necessariamente melhor, mas visível. Desejamos recuperar um sentido de dignidade nacional, que começa por reconhecer que a opinião de uma chilena ou de um chileno é tão importante quanto a de um investidor estrangeiro. Queremos recuperar o direito de imaginar um país no qual não haja cidadãos de segunda classe. Um país em que se reconheça a preciosa diversidade dos povos autóctones e se reivindiquem definitivamente os seus direitos como povos. Desejamos recuperar o direito de decidir sobre a nossa constituição, de participar na vida pública e política sob o prisma saudável de "um homem, um voto". Desejamos voltar a ser todos iguais perante a lei, e que a lei seja igual para todos. Desejamos desenvolver harmoniosamente a nossa vida cívica para que connosco evolua a democracia que queremos. Desejamos que a nossa democracia defina os limites do mercado, e não, como propõe o neoliberalismo, que o mercado limite as conquistas da democracia.
E todos estes desejos, e muitos mais, constituem a força do voto de confiança que Michelle Bachelet recebeu.
A partir desta esperança, Michelle bachelet tem todo o meu modesto apoio como escritor e chileno sem direitos. Mas esse apoio será sempre crítico, construtivamente crítico, porque assim aprendi com Salvador Allende, porque assim mo dita a minha cultura socialista"
in Sepúlveda, Luis, Crónicas do Sul, Ed ASA, Janeiro de 2008