O sentido da memória de Luis Buñuel

No colégio, em Saragoça, eu era capaz de recitar de cor a lista de todos os Reis visigóticos, as superfícies de todos os estados europeus, assim como outras inutilidades. Geralmente, nos colégios deste tipo, o exercício da memória mecânica é desprezado. Em Espanha, a este tipo de alunos chama-se um memorion. E eu mesmo, como memorion que era, a nada mais tinha direito senão a sarcasmos por estas exibições medíocres.
À medida que os anos da nossa vida vão passando, esta memória, outrora desdenhada, torna-se-nos preciosa. As recordações acumulam-se sem nós mesmos sabermos, e, um dia de repente, procurando em vão o nome de um amigo, de um parente. Esquecemo-lo. Nessa altura, pode acontecer-nos mergulharmos numa espécie de raiva, procurando em vão uma palavra que conhecemos, que temos debaixo da lingua, e que se recusa obstinadamente a reaparecer.
Com este esquecimento, e outros que não tardarão a suceder, começamos a compreender e a admitir a importância da memória...
Luis Buñuel (1900-1983) em "O Meu ùltimo Suspiro"