Alexandre O'Neill

Poema retirado de "Seis poemas confiados à memória de Nora Mitrani", de Alexandre O'Neill


Passam os anos a caratear...
Com ou sem sorte,
não será tempo de viver, de amar,
de resistir à morte?

Ouve amor-o-eterno e o que ele diz
a quem se dá.
Não esperes pelo tempo: sê feliz
que a felicidade é já!

E a felicidade é esse rosto eleito
por ti,
é esse palmo de ternura e o jeito
com que sorri.

E a felicidade é a melancolia
que nesse rosto existe,
quando te quer dizer que só por ele
é bom estar triste...

Passem, então, os anos a deitar-nos
línguas de fora...
Se morrermos será de nos amarmos
em cada hora!

Mais um ano de esperança? Não o queiras
se a esperança é adiar,
e vive-o como se fosse a vida inteira
se tiveres de esperar!...