O Cravo Vermelho



O cravo tornou-se no símbolo da Revolução de Abril de 1974. Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, apoiando os soldados revoltosos; alguém (existem várias versões, sobre quem terá sido, mas uma delas é que uma florista contratada para levar cravos para a abertura de um hotel, foi vista por um soldado que pôs um cravo na espingarda, e em seguida todos o fizeram), começou a distribuir cravos vermelhos pelos soldados que depressa os colocaram nos canos das espingardas.

25 de Abril, 35 anos depois

35 anos passados, e sempre, sabe bem relembrar.
A "Agenda" começa aqui as comemorações "oficiais".... ;-)







Ao vivo, no Largo do Carmo:



Nota pessoal: nos tiros que se ouvem, um tio meu com 19 anos de idade e que na altura estava no local, foi alvejado e, para tristeza dele, não pode comemorar na rua o primeiro 1 de Maio em liberdade em Portugal na semana que se seguiu.

António Gedeão, "CALÇADA DE CARRICHE"

CALÇADA DE CARRICHE

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve lhe o sangue
de afogueada;
saltam lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu a deitada;
serviu se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá lhe a mamada;
veste se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueija
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.


António Gedeão

HORA DO PLANETA




HORA DO PLANETA

Hora do Planeta é uma iniciativa da rede WWF que envolve Cidadãos Comuns, Governos e Empresas numa acção conjunta que pretende sensibilizar os menos atentos para os efeitos nefastos do aquecimento global.

Até ao momento, mais de 900 cidades em 80 países já se comprometeram a apagar as luzes dos seus edifícios mais emblemáticos.


Às 20h30 do dia 28 de Março de 2009 apague as luzes e veja a diferença que pode fazer no combate ao aquecimento global.

Adira à HORA DO PLANETA!

A Hora do Planeta começou em 2007, por iniciativa da WWF-Austrália, que envolveu apenas a cidade de Sidney , onde 2 milhões de pessoas desligaram a s s uas luzes. A expectativa inicial era de reduzir 5% do consumo de energia eléctrica da cidade durante os 60 minutos do evento. O resultado, porém, foi o dobro do esperado: 10,2% de redução no consumo.

Em 2008 mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo participaram na Hora do Planeta.

Em 2009, a Hora do Planeta espera envolver os mil milhões de pessoas em 1000 cidades.


Para mais informações contacte, por favor:

Angela Morgado

WWF Mediterrâneo Portugal

amorgado@wwfmedpo.org

www.wwf.pt

Luiz Pacheco - O tradutor

Luiz Pacheco - "O cachecol do artista"

Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado

Final do célebre "Manifesto Anti-Dantas", de José de Almada Negreiros, dito por Mário Viegas.

Isto é Portugal

O genial Mágio Viegas diz o genial Almada Negreiros - A Cena do Ódio - um amargo e real retrato deste país que nos pariu! Amor e ódio são sentimentos complementares. Odio a este povo que somos por todo o mal causado e a miséria em que tornamos este país que amamos... Matria madrastra e filhos parricidas, drama dum país à deriva. Somos todos Portugal. Somos todos responsáveis por alimentarmos uma classe politica, refém de interesses económicos, que destroi uma pátria agonizante!



Sei que vou no meu sentido




Cântico Negro



"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!



José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'




Léo Ferré - "Le Chien"

Léo Ferré, "La poésie"

Les poètes - Léo Ferré

O Prazer em Pessoa


Fotograma do filme Zero em comportamento (Zéro de conduite) de Jean Vigo



Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças



A escola vista por Guerra Junqueiro

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923)
Escritor/Poeta/Jornalista/Político

A Escola Portuguesa


Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão:
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.

Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora
Dos corpos feitos de arminho,
Das almas feitas d'aurora.

Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrela.

Contemplam de quando em quando,
E com inveja, Senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor.

Oh, que existência doirada
Lá cima, no azul, na glória,
Sem cartilhas, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!

E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos,
E as cifras tristes dão ais!

Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix co'as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!

Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é — Ontem
E o do discíp'lo — Amanhã!

Como é que há-de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o Passado quem ensina
O b a ba ao Futuro!

Entregar a um tarimbeiro
Um coração infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!

Barbaridade irrisória,
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!

A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada!
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvoradal

Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.

Da pequenina semente,
Que a escola régia destrói,
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.

Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoireiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.

Deixai ver o Sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço.
Esta escola é um atentado,
Um roubo feito ao progresso.

Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paul;
Rasgai no muro Ignorância
Trezentas portas de azul!

O professor asinino,
Segundo entre nós ele é,
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.

Empunhando as rijas férulas
Vós esmagais e partis
As crianças — essas pérolas
Na escola — esse almofariz.

Isto escolas!... que índecência
Escolas, esta farsada!
São açougues de inocência,
São talhos d'anjos, mais nada.


Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

António Lobo Antunes, - "Cartas de Guerra" - visto pelos espanhóis



Microespacio dedicado a la literatura, titulado café con libros, dentro del programa de la TPA contresentidos. En esta ocasión se analiza la obra del novelista portugués António Lobo Antunes.

Prémio FIL Guadalajara 2008, Espanha




António Lobo Antunes recuerda y agradece a sus grandes maestros por darle las lecciones necesarias para mejorar su trabajo y solucionar problemas técnicos a los que ha debido enfrentarse como escritor. Además, evoca su paso por el ejército portugués durante la guerra de descolonización de Angola y su decisión de dedicarse a la escritura al regresar herido a su país.

"O "Arquipélago da Insónia" de António Lobo Antunes



Começamos por uma casa, pelo sentimento uma força em exercício, um poder que vem de há muito tempo, quando essa casa era igual mas era uma herdade, um latifúndio, quando nada faltava a família, as empregadas na cozinha, o feitor, os campos, a vila ao fundo, e a voz do avô a comandar o mundo.
Agora há fotografias no Alentejo em vez de pessoas, e há objectos, cientes que também acabarão sem ninguém, há memórias de quem dorme, ou morreu, mortos que não sabem se a vida foi vida, há os irmãos, um é autista, e a imagem da mãe muito nítida, sempre de costas
(alguma vez a vi sem ser de costas para mim?).
Nessa altura já não se sabia a que cheira o vento, como não se sabe para onde foi a Maria Adelaide, morta também, foi para Lisboa?
A herdade foi tirada ao autista, e a doença (de quem?) é um arquipélago branco nas radiografias dos outros, um arquipélago normal, inocente. Estão todos mortos ou estão todos a sonhar e trocaram de sonhos, como se pudessemos trocar de sonhos.
De qualquer forma, sabemos que daqui a nada será manhã mas aquilo que se disse ainda se ouve lá dentro
(- Não precisa de se casar comigo menino o seu pai nunca casou comigo)
E então vamos sabendo que não será manhã nunca.

(Obrigada Isabel pela sugestão)

De que Serve a Bondade


De que Serve a Bondade
1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!


Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

Li hoje quase duas páginas

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não
eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXVIII"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Um poema perdido (Helder Monteiro)


A fé dos poetas

Os poetas afagam-nos os sentidos
e agendam novos medos para viver
os sonhos agendados já perdidos
da memoria sonhadora de prazer

Sórdidos medos de fazer
sulcos na memória a doer
sólidos gemidos de sofrer
o sabor da ferida do prazer

Sem Deus para pedir
meu ser na encruzilhada
espera por conseguir
partir depressa desta alhada

Fé do medo consentido
Agonia do medo conseguido
Aceno ao medo não contido
Quero o medo sem sentido


Fragmento de fé achado na vida por Helder Monteiro

Perfilados de Medo - Poema de Alexandre O'Neil

Perfilados de medo agradecemos
o medo que nos salva da loucura
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura

Aventureiros já sem aventura
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos

Perfilados de medo, sem mais voz
o coração nos dentes oprimido
os loucos, os fantasmas somos nós

Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido

Alexandre O'Neil

Este poema foi musicado por José Mário Branco para o álbum (LP, na época) "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" editado em Novembro de 1971 pela Sasseti, tendo sido gravado em França durante o seu exílio. Este trabalho teve também a colaboração, entre muitos outros artistas, de Sérgio Godinho, também exilado na época em França.

AUTOPSICOGRAFIA

AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

AGENDA CULTURAL










Wynton Marsalis - He and She















As palavras dos poetas


As palavras dos poetas dizem da luz possível do que lhes vai na alma.
A alma dos poetas diz-nos pelas palavras o saber sentir, o que fazer com os sentidos.
As palavras dos poetas dizem-nos dos nossos próprios sentidos.

Todos temos de poeta, na alma, nas palavras que dizemos, no olhar, nas mãos, no coração, no sorriso, na amizade, na alegria, na luz, na revolta, na paixão.

Todos temos de poeta, a alma e as palavras, as deles ou as nossas.


"Girassol"

É a Luz que nos devolve à vida


Eu que nada sei de poesia, nem entendo os "poetas" que desperdiçam belas palavras em "poemas" inúteis, sempre me fascinaram os génios que das palavras fazem belos monumentos, verdadeiros patrimónios da Humanidade, "oitavas" maravilhas para nos fazerem sentir melhores connosco e com os outros. Não são as palavras que são tristes, mas são as trevas que nos assustam... As palavras ajustadas pela argamassa dos poetas só produzem saber que nunca é triste - é luminoso.


Em época que antecede o Domingo de Páscoa o mundo é ainda mais medonho. Procuremos nas palavras, que não são tristes, a luz que precisamos para ver mais além. E aprendemos a caminhar na vida, mesmo quando uma curva nos faz esquecer de nós...

Fernando Pessoa
A morte é a curva da estrada,
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.


23-5-1932
Poesias. Fernando Pessoa

"O que há em mim é sobretudo cansaço", Álvaro de Campos


O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Para ser grande, sê inteiro




Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive



Ricardo Reis

Mozart - Flauta Mágica - Abertura




Achim Holub conduz a Abertura da Flauta Mágica de Mozart com a Kammerphilharmonie Graz, uma orquestra especializada historicamente em interpretações da música dos séculos XVIII e XIX, utilizando os instrumentos originais da época.

Quinta da Regaleira


Uma visita à Quinta da Regaleira comentada pelo Professor Doutor José Manuel Anes.

Carlos Gardel - "Volver" - Tango Argentino



Carlos Gardel - Volver - 1935

(video repetido anteriormente neste blogue)

Na sequência das mensagens da Isabel acerca de Flamenco e da canção "Volver" cantada maravilhosamente pela Estrella Morente, sabiam que era um tango argentino de 1935? ;-)

Felicidade e muita, muita LUZ!!!



Hoje, mais uma vez na vida, os meus sentidos puderam confirmar que vale a pena chegar ao caminho das pedras e percorrê-lo. É sinal de que se atravessou grandes provas e que se conseguiu superá-las.
Quinta da Regaleira, 19 de Março de 2009.
Obrigada aos amigos que aparecem na fotografia.

Los Abrazos Rotos estreia hoje


O novo filme de Pedro Almodóvar, «Los Abrazos Rotos» estreará nas salas de cinema espanholas esta quarta-feira, de acordo com a produtora El Deseo. A história é protagonizada por Penélope Cruz e Lluís Homar, entre outros.
Trata-se da 17ª longa-metragem do premiado realizador espanhol, além de ser a mais longa e mais cara. «É uma história de amor absoluta a quatro pistas», afirmou Almodóvar, no início das filmagens, em Maio.
A obra tem tons sombrios, dramas familiares, ambições e generosidade, transcorrendo duas épocas: a actualidade e meados da década de 90.


in diário Digital

Paolo Conte

Max - Paolo Conte e orquestra no Festival de Jazz de Montreux, 1989.




Max [Live Arena di Verona - 2005]




Azzurro


Um Portugal mais branco num passado negro

Nostalgia de um Portugal simples e amordaçado, e de um povo "estúpido, mas casto", como, com carinho e paternalismo, Salazar nos gostava de mimar... A indústria dos detergentes, sempre a pensar no bem estar da fada do lar portuguesa, excede-se a si própria na senda de tornar o mundo mais branco... Reparem na subtileza das cores... a preto e branco...

Lola Montez versão restaurada de 2008

Eliza Rosanna Gilbert (1821-1861), mais conhecida como Lola Montez, ficou célebre como bailarina exótica e amante de inúmeros homens famosos, nomeadamente de Alexandre Dumas Filho, de Franz Liszt e do Ludwig I, rei da Baviera que a tornou Condessa de Landsfeld no seu aniversário em 1847. Apesar de - ou talvez devido - à sua reputação, foi aceite na sociedade e contou entre os seus amigos Frederic Chopin, George Sand, Alexandre Dumas, Victor Hugo e Honoré de Balzac.

Lola Montes (1955) é um filme histórico, o último dirigido por Max Ophüls. Baseado livremente na vida de Lola Montez - encarnada pela admirável Martine Carol - narra a história de uma bailarina de cabaret do seculo XIX e dos seus inúmeros "affairs". História trágica de uma mulher fascinante contada na primeira pessoa através de flashbacks da sua actual vida de atracção de circo.



Um dos filmes mais marcantes da história do cinema. A ver no esplendor de uma cópia restaurada e remontada na versão original do autor.

Uma petição...

Joaquim Jorge


"Uma petição por principio é feita para se fazer algo que não se fez ou fez-se mal e pretende-se alterar ou evitar que se faça. Agora corre na Net por iniciativa de Daniel Oliveira , Pedro Sales e Pedro Vieira uma petição "sui generis" para que Dias Loureiro se demita do Conselho de Estado depois de todas as trapalhadas no caso BPN. Como sabem a lei não permite a quem preside a este órgão que possa demitir os seus membros. Daí a única hipótese é o próprio membro demitir-se ,mas como Dias Loureiro não vai fazê-lo . Determinados actos como este de falta de vergonha e respeito pelos cidadãos , mas também por que não dizê-lo , por nós próprios leva a este divórcio politica / cidadãos. Parece que os nossos políticos tirando raras excepções tem cola bostick nos lugares , isto é, nas cadeiras do poder que ocupam . Ao que chega este país ter que fazer uma petição para um político se demitir . Claro que os efeitos práticos são nulos mas é uma acto simbólico cheio de significado."

Bebel Gilberto - All Around




"Sem Contenção"




Prá sempre um não
Prá todos não
Não quero ver nem mais sentir
Cabe a razão de cada um ter sua visão

Sem contenção
Só na emoção
Prá ser feliz sem resistir
De um puro não prá explicar essa tua intenção

Sem contenção de emoção
Sem contenção, sem contenção

Prá sempre um não
Prá todos não
Não quero ver nem mais sentir
Cabe a razão de cada um ter sua visão

Só com a canção
Sem coração
Mordendo o tempo sem sentir
Sendo uma pura ilusão só viver de emoção

Sem contenção de emoção
Sem contenção, sem contenção

Aaahh, Aaahh?.


"Mais Feliz"



O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide o rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar nem ser tema de livro
A vida inteira eu quiz um verso simples
Prá tranformar o que eu digo

Rimas fáceis, calafrios
Fura o dedo, faz um pacto comigo
Um segundo seu no meu
Por um segundo mais feliz

O Sentido da Vida

A Alemanha e o mundo ocidental estão de novo em choque por mais um episódio de violência gratuita de um adolescente. Tim Krestschmer tinha 17 anos e a sua família vivia com "conforto económico". Em casa tinha um arsenal de armas e treinava todos os dias. Na quarta feira disparou 60 tiros na sua antiga escola e matou 15 pessoas. Em conversa por chat, na véspera, manifestara a sua frustração de ninguém reconhecer o seu potencial. Estava farto daquela vida e avisava para ficarem atentos ao que poderia acontecer no dia seguinte na cidade de Winnenden. Uma curiosidade apenas: 12 da vitimas eram do sexo feminino...

O mundo está perigoso e ninguém parece compreender o que se está a passar... Ainda há umas semanas, soube da história, bem perto de nós todos, de um jovem que batia regular e violentamente na mãe a ponto de lhe deixar marcas bem visíveis. Todos o conhecem como assaltante violento, mas a mãe, estúpida como todos os pais que defendem as crias monstruosas e os tratam como "anjinhos," afirma publicamente que é "uma jóia de filho"... Jóia de sangue como os diamantes arrancados à custa do sofrimento de crianças.

Que sociedade estamos a criar? Que escola inútil estamos sustentar? Porque os professores que apenas se interessam pelos trinta e muitos mil euros que por ano são debitados na sua conta e recusam a avaliação do seu trabalho, talvez um dia tenhamos de assistir numa escola perto de nós um drama idêntico!

Um filme reflecte bem, num país em guerra civil permanente, as consequências da nossa irresponsabilidade e ignorância dos nossos deveres na sociedade.

Não basta dizer que somos vítimas de um mundo violento: SOMOS NÓS OS PROTAGONISTAS DESTA DEMOCRACIA QUE ELEGE DEPUTADOS QUE CRIAM AS LEIS QUE NOS HÃO-DE MATAR!
Seguem as imagens e palavras para nos desassossegar...






"A Viagem, enfim" de Mário Henrique Leiria

A Viagem, enfim

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
- Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
- Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
- Vou derivar, menina.
- Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.
(...)
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens. Ainda não voltou.

Mário Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic,in http://cvc.instituto-camoes.pt

"Não é proibido" de Marisa Monte



Música "Não é proibido", do novo DVD "Infinito ao meu redor" de Marisa Monte!!!!

Diretor: Cláudio Torres.

Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate,

Uh!

Paçoca, mariola, quindim,
Frumelo, doce de abóbora com coco,
Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Uh!

Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido,
Pode chegar!

(uh)
Vai ser nesse fim de semana (uh)
Manda um e-mail para a Joana vir (uh)
Woo.. Uh!

(uh)
Não precisa bancar o bacana (uh)
Fala para o Peixoto chegar aí! (uh)

Traz todo mundo, 'tá liberado, é só chegar.
Traz toda a gente, 'tá convidado, é pra dançar,
Toda tristeza deixa lá fora; chega pra cá!
(uh)

Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate,

Uh

Paçoca, mariola, quindim,
Frumelo, doce de abóbora com coco,
Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Uh

Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido,
Pode chegar!

(uh)
Vai ser nesse fim de semana (uh)
Manda um e-mail para a Joana vir (uh)
Woo.. Uh!

(uh)
Vai ser nesse fim de semana (uh)
Manda um e-mail para a Joana vir (uh)
Woo.. Uh!

(uh)
Não precisa bancar o bacana (uh)
Fala para o Peixoto chegar aí! (uh)

Traz todo mundo, 'tá convidado, é só chegar.
Traz toda a gente, 'tá liberado, é pra dançar,
Toda tristeza deixa lá fora; chega pra cá!
(uh)
Yeah
(uh)

"Meu Doce Vampiro" de Rita Lee

Século XXI

in http://clubedospensadores.blogspot.com/

Sophia de Mello Breyner por si mesma

Sophia de Mello Breyner

por Arpad Szenes



Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-te na luz, no mar, no vento.

"No Tempo Dividido e Mar Novo",

1985, p. 82


Maria Teresa Horta


Fotografia de Graça Sarsfield
in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001




Minha senhora de mim

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

recusando o que é desfeito

no interior do meu peito

Minha Senhora de Mim, Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal


in www.mulheres-ps20.ipp.pt Mulheres portuguesas do século XX