Margens

Uma vez, ia eu a passar a ponte a pé…precisava de ir apanhar o barco à outra margem. Mas, depois, pensei, se estava eu na margem de cá, para que queria eu passar a ponte a pé para, depois, apanhar o barco para voltar para cá?Então, decidi apanhar o barco de cá para lá para, depois, passar a ponte a pé mas, sim, de lá para cá…

Maria Monteiro

A OESTE TUDO… AGONIZA

O Oeste é palco de mais um capítulo da macabra encenação do zoológico de sofrimento humano. As televisões tornam Caldas da Rainha pasto de demagogia politica com o encerramento da “maior fábrica de cerâmica nacional”. A burguesia lisboeta, políticos e pseudo-jornalistas, que vivem “à grande” à custa do trabalho e desespero daqueles que apelidam de provincianos descem à província para se mostrarem. Nós, os provincianos, pagamos impostos para que Lisboa e Porto possam ter as mordomias de transportes públicos hiper deficitários. A empresa SECLA sucumbe ao fim de 61 anos de intenso e inestimável serviço ao país. Pessoas são arrastadas para o sofrimento, sem esperança, de voltarem a trabalhar que o país irá ignorar e desejar que rapidamente morram para não estragar as brilhantes estatísticas a apresentar à comunidade europeia. Os Centros de Desemprego rejubilam com novos clientes para manterem a sua sinistra actividade. Este país deprime-nos e mata-nos de sofrimento, mas a publicidade institucional quer contrariar a realidade com o slogan “A OESTE TUDO DE NOVO”.
Que mais querem de nós?
Helder Monteiro

Mais um, de tantos exemplos, do liberalismo descontrolado

É com absoluto pesar mas também com toda a compreensão de causa que publicamos o excerto de um mail que nos acabou de chegar:

"Olá a todos,
É com muita tristeza que vos envio este e.mail. Como já viram certamente nas noticias, a unidade fabril da SECLA encerra hoje... e por isso também para mim é o último dia de trabalho na SECLA, há quase 31 anos que comecei a trabalhar aqui e foi o meu 1º emprego, sendo da 1ª vez 7 anos e nesta segunda fase faz agora 15 anos... (...)"

Nós próprios que também sabemos o que é não ter trabalho durante muito tempo (anos) estamos com esta senhora e com todos os seus colegas, assim como com todos os casos semelhantes neste país, pelo menos.
Não podemos fazer nada, infelizmente, mas ao divulgarmos mais este exemplo de liberalismo desmedido, de gestões danosas, da falta de consideração pelo ser humano, europeu, neste caso, talvez se consiga "agitar" algumas mentes (i)responsáveis e, num futuro que esperemos que todos ainda possamos ver, os nossos dias sejam melhores e, principalmente, justos.
A nossa melhor compreensão.
A equipa da "Agenda dos Sentidos"

Uma crónica dos espectáculos da minha juventude

Que saudades!!! De tudo!! De quando eu era uma jovem que comprava com semanas de antecedência os bilhetes para o queridíssimo Coliseu dos Recreios, de tantas memórias, de tantas noites, dos meus imprescindíveis artistas da Música Popular Brasileira, Bethânia, a minha diva de sempre, o mano, Caetano, o meu guru, Gilberto Gil, uma das pessoas mais bonitas que existem, Chico Buarque, o génio, infelizmente não tantas vezes no Coliseu e uma delas no antigo Pavilhão dos Desportos, que depois do espectáculo não me podia mexer com dores de costas devido àquelas bancadas lindas..., Simone, a Bittencourt de Oliveira, aquele 1,78m (a mesma altura que eu) de mulher linda a cantar as maravilhas preciosas do Ivan Lins......enfim, tantos e tantas noites, repetidas e repetidos....O Ney Mato Grosso, outra pessoa muito bonita, que vi em variados registos, desde a versão de "índio" a dançar no palco durante todo o espectáculo, passando pela versão vestido de licra como segunda pele, colada ao corpo, super decotada de alto a baixo e a dançar sensualmente, a plateia cheia de mulheres a gritarem como loucas e alguns homens visivelmente delirantes com o Ney, até uma outra versão que nunca esquecerei e, para mim, a mais bonita de todas, um espectáculo chamado "Pescador de pérolas", que constituiu depois um disco absolutamente obrigatório na secção "MPB" numa discoteca e onde ele cantava, vestido impecavelmente de fato branco, acompanhado a piano, canções tradicionais da America Latina,...
As horas de antecedência com que se tinha de ir no dia do espectáculo, aquela porta lateral esquerda do Coliseu, ao cimo da subida repleta de gente, numa fila com uma largura de, pelo menos, 10 pessoas que se acotovelavam para conseguir chegar ao local das bancadas do Coliseu de onde se tinha uma visão melhor do palco, porque a malta era jovem e não havia muita massa e a que havia dava apenas para nos podermos sentar no "chega-ta p'ra lá" do Coliseu.
Aquelas queijadas, duríssimas, de Sintra que se compravam no intervalo e que depois nunca se chegavam a conseguir comer,...No final, os encores que a malta exigia!! Sim, que no Coliseu isso era completamente obrigatório! Nós exigíamos isso dos artistas. Exigíamos com os aplausos durante muitos minutos seguidos, acompanhados do bater de pés de, pelo menos, 5 mil pessoas, que era a lotação máxima do Coliseu antigamente, e a que ninguém ficava indiferente. Uma vez o Ney voltou, ao fim de vários encores, para agradecer apenas, envolto numa toalha de veludo vermelho…..foi o vir a abaixo do Coliseu!!!Aquelas noites eram absolutamente maravilhosas, eu crescia, tornava-me mulher, sentia-me uma pessoa privilegiada por ter a sorte de ser de Lisboa, viver em Lisboa e ter à mão um Coliseu dos Recreios que me transformava numa pessoa melhor.

Maria Monteiro

Gatos e cães

A gata preta com bolas brancas ia no seu caminho, muito tranquila mas sempre com os bigodes alerta a tudo o que a rodeava. Ao dobrar uma esquina, assustou-se!!! Surgiu-lhe à frente um cão, enorme, branco com bolas pretas, com um ar apressado, embora um tanto descoordenado nos seus movimentos, parecendo que cada um dos seus membros se destacava dos restantes.
Assim que viu a gata, perguntou-lhe as horas. A gata que, precisamente, naquele dia tinha deixado o relógio em casa, tentou olhar para o Sol no sentido de poder dar-lhe uma resposta, a mais concisa e rigorosa possível. O cão, apercebendo-se dos movimentos da gata compreendeu também que, se olhasse para o Sol, ficaria a saber, concerteza as horas.
Passaram alguns instantes e, tanto a gata como o cão, encandeados com a esfera solar, tentaram olhar um para o outro. Foi, então, quando nasceu aquela maravilhosa paixão entre os dois.
Hoje, são pais de 7 lindos cagatos, 3 pretos com bolas brancas, outros 3 brancos com bolas pretas e 1, lindo, em formato de relógio de sol que a D. Zulmira, assim que o viu com 2 dias de nascença, o quis imediatamente para si para o colocar no seu belo quintal, passando, desde então todo o bairro a regular-se pelas horas que aquele cagato emitia.
Maria Monteiro

A propósito de uma fotografia


A propósito do fotograma do filme Blow-Up de Antonioni apetece-me pegar num texto de Edgar Morin do livro "O cinema ou o homem imaginario"
"A imagem não é mais do que a abstracção: algumas formas visuais. Estas formas são, no entanto, suficientes para que se reconheça o objecto fotografado, São sinais. Mas mais símbolos do que sinais. (...) é simbolico tudo aquilo que sugere, contém ou revela outra coisa, ou algo mais do que a si próprio. O símbolo é, ao mesmo tempo, sinal abstracto, quase sempre mais pobre do que simboliza, e presença concreta, pois que sabe restituir-lhe a riqueza"

Helder Monteiro

Posted by Picasa

Solidariedade - Amigos

Desalento

Nestes mares sem bonança,
Boiando sem esperança,
Meu baixel em vão se cansa
Por ganhar o amigo porto;
Em sinistro negro véu
Minha estrela se escondeu;
Não vejo luzir no céu
Nenhum lume de conforto.
A tormenta desvairou-me,
Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me
Sobre o elemento infiel;
Ouço já o bramir tredo
Das vagas contra o penedo
Onde irá - talvez bem cedo -
Soçobrar o meu batel.
No horizonte não lobrigo
Nem praia, nem lenho amigo,
Que me salve do perigo,
Nem fanal que me esclareça;
Só vejo as vagas rolando,
Pelas rochas soluçando,
E mil coriscos sulcando
A medonha treva espessa./…/
(Bernardo Guimarães)

Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdadebem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
(Almada Negreiros)

POEMA EM MIM MENOR de Helder Monteiro


ABOMINAVEL MUNDO NOVO (em carne viva) de Helder Monteiro

Esta não é a nossa terra prometida...
Já não somos o planeta azul!

Paradoxo

" ISTO NÃO É UM SORRISO! "



Helder Monteiro

UM MUNDO SEM MAGIA MATA A NOSSA ALEGRIA


O futuro dilui-se na desilusão presente. A ilusão consolidada no século XX com a argamassa das fantásticas descobertas do final do século XIX perdeu a magia num novo século sem solidariedade onde as pessoas não fazem sentido. Uma Europa que põe o défice acima das pessoas que diferença faz de Hitler e Stalin que puseram as sua loucura acima de tudo e provocaram genocídios…
Helder Monteiro